Kingsman: The Secret Service, mostra logo pelo trailer como tem boas hipóteses de ser um dos melhores filmes de este ano, e prova-o quando nos sentamos no cinema durante duas horas a ver.

Começando por uma questão, que acho que ás vezes nos perguntamos quando vemos este tipo de filmes – O que define um filme “estupido”? É a comédia por si só, ou construção de um elenco? E por outro lado, o que nos faz conseguir levar um filme desses a sério, por muito “idiota” e “over the top” que a história possa vir a ser? A resposta, eu creio, consiste muito simplesmente na construção do filme em si, na sua capacidade para construir humor e “over the top” action que possa ser levada a sério. Tomando como exemplos alguns filmes do mesmo género e até Animes, que me conseguiram fazer ficar interessado em coisas como Comboios a andar sobre a água (One Piece) ou a roupa ser um parasita que está a tentar dominar o mundo (Kill la Kill), ideias que por si só são ridiculas e sem lógica, mas que graças a uma boa construção até ao momento, nos fazem rir e levá-las a sério simultaneamente.

E é nesta última categoria que eu acredito que Kingsmam se estabelece tão bem. Ao contrário de outros, que procuram apenas fazer as pessoas rir (Epic Movie, Scary Movie) sem qualquer ideia por trás, ou então recorrer à paródia ou à inutilidade das personagens para dar humor (Jonny English, Get Smart), Kingsman opta por outra abordagem – pela criação de um elenco, de uma história bem definida estilo James Bond e de personagens com backgrounds, personalidades e maneiras de ver o mundo, e a partir daí procura tirar o seu humor. A pergunta é, algo assim funciona? Não é fácil, mas Kingsman conseguiu fazê-lo da melhor maneira que eu provavelmente alguma ve vi – é um filme clássico de paródia a outros filmes de acção, mas que está demasiado bem escrito para não ser levado a sério.

A história passa-se no presente, onde somos apresentados a Harry Hart (Colin Firth), um membro de Kingsman, a maior organização independente de espionagem do planeta, que opera ao mais alto nivel de confidencialidade e tem a capacidade de evitar burocracias para fazer o seu trabalho o mais rápida e eficientemente possivel, tudo sem que o mundo alguma vez faça ideia da quantidade de vidas que já foram salvas graças a ele. É apenas quando um dos seus colegas morre que Harry, na esperança de pagar uma divida com 17 anos, convida Eggsy (Taron Egerton) para preencher o lugar do seu antigo colega, numa tentativa de parar o vilão Valentine (Samuel L. Jackson) de, adivinharam, dominar o mundo.

Ora, para aqueles que leram até aqui, pensariam em clichés de acção dos anos 80-90, e de uma maneira teriam razão, pois o filme dá-nos essa ideia, para depois nos surpreender incrivelmente ao pegar em algo que já vimos e inovar para algo que colocou toda a sala de cinema a rir várias vezes. Aliás, como Valentine diz muito bem:

“So this is the kinda moment where i tell you my ultimate plan, take you in custody, and you find someway to escape…. well, i have news for you, this aint no movie”

Juntanto a isso temos também um elenco que inclui Mark Strong(que nem sequer é vilão) e Michael Caine, para além de algumas das mais divertidas e bem feitas cenas de acção que já vi, uma história bem construida, que sabe exactamente quão a sério se deve levar, bom character developement (aqui personagens são muito mais que stand up comedy in a screen actors) e o melhor movie comercial que eu já vi até hoje (Michal Bay, devias aprender algo com isto).

Não me lembro da ultima vez em que vi um filme que estivesse tão bem construido e ao mesmo tempo me tivesse divertido tanto, que sabe exactamente o que está a fazer e que consegue equilibrar paródia, inovação, seriedade e character development (que muitos filmes do mesmo género se esquecem) e que, em vez de tentar arrancar risos aos espectadores, constroi cenários propensos a isso e depois deixa o build up tratar da comédia, permitindo também que até as cenas mais ridiculas possam não só ser levadas a sério, como nos pôr a rir alto. Chegou a tal ponto que não só pessoas com quem eu fui ver o filme, que sempre gostaram somente de dramas e filmes sérios, sairam da sala com um sorriso na cara, como precisei de uma segunda ida ao cinema para me dar conta do quão bom o soundtrack do filme é (ao lado deixo a minha track preferida).

Pontos negativos de Kingsman

Como aspectos negativos, apenas gostava que as cenas de treino tivessem sido um pouco mais longas, pois o progresso de Eggsy entre street kid até Kingsman parece demasiado rápido e acredito que aí perdeu-se uma boa oportunidade para conhecer melhor a personagem (time skip demasiado grande nessa parte e o filme deveria ter tido mais 15 min so por isso).

No entanto, por muitos aspectos negativos que eu não acredito que o filme tenha, não existe qualquer duvida – não via um filme tão divertido à muito tempo, um que constroi muito bem o seu humor, a sua história e as suas personagens, mas ao mesmo tempo não se leva a sério nem dá nenhum tiro no pé só para nos fazer rir mais um pouco. Sabe exactamente o que está a fazer, como fazê-lo, e consegue que ninguém pare para perguntar o quão ridiculas algumas das cenas são, pois estamos demasiado ocupados com o quão awesome elas são. Muitos parabéns a Jane Goldman e a Matthew Vaughn.

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