Review – Kingdom Hearts 3

A conclusão mais esperada

O bom
Excelente conclusão da história
Gráficos e performance soberbos
Excelente banda sonora
Jogabilidade Fluida e divertida
O mau
Alguns problemas de pacing na história
Endgame com pouco conteúdo
92

Foi em 2006 que o último jogo numerado de Kingdom Hearts saiu, para a já velhinha PS2. Entretanto, vimos uma data de spin-offs, coleções e remakes serem lançados para tudo o que era consolas, enquanto os fãs hardcore esperavam impacientes por notícias acerca de Kingdom Hearts 3. Em cada E3, esperava impacientemente pela conferência da Sony para saber se veria alguma novidade acerca do jogo. Até que sensivelmente em 2013, começamos a receber cada vez mais notícias e a ver o desenvolvimento do jogo andar para à frente, especialmente após ter sido anunciado que o motor gráfico iria ser mudado para o Unreal Engine 4.

Nas últimas semanas antes do lançamento, a Square Enix entrou completamente em modo marketing e era rara a semana em que não saía um trailer novo e eu, como fã desesperado, comia tudo mesmo que houvesse perigo de spoilers.

Finalmente com o jogo na mão, posso dizer que a espera valeu completamente a pena, mesmo que Kingdom Hearts 3 não seja o jogo perfeito em alguns aspetos. Vejamos.

Devem jogar Kingdom Hearts 3 antes dos outros?

A resposta óbvia é: não. Kingdom Hearts é uma série extremamente focada na narrativa e apesar de poderem jogar Kingdom Hearts 3 antes de jogarem os outros, ou apenas jogarem os títulos numerados, a verdade é que a experiência que vão ter não é a melhor possível.

Diria que é o equivalente a irem ver os filmes dos Avengers sem terem visto os filmes de cada um dos super heróis. Podem gostar do filme, mas existem muitas referências e easter eggs que não vão entender e fariam do filme uma experiência mais completa.

Uma das principais razões, é o facto de Kingdom Hearts 3 assumir que jogaram todos os jogos anteriores (literalmente todos) e viram os filmes cujos mundos se encontram representados no filme. Apesar de existir um excelente esforço para expor os acontecimentos anteriores nas cinemáticas, existem alguns saltos na história que só vão conseguir preencher se já viram o filme e sabem o que aconteceu.

Isto acontece porque, ao contrário dos jogos anteriores, os mundos da Disney estão presentes porque têm um papel importante ou uma razão para avançar a história. Assim, em vez de ser Sora e companhia a terem um papel na história do mundo, são os acontecimentos desse mundo que influencia a história de Sora.

Para quem está a pegar na série começando no 3, existe ainda um glossário com os principais termos e uma série de vídeos que contam a história dos jogos anteriores, mas como disse, só jogando os anteriores conseguem espremer toda a experiência de Kingdom Hearts 3.

Luta final contra a escuridão

Kingdom Hearts 3 começa imediatamente após os acontecimentos de Dream Drop Distance, no qual Sora tem de descobrir uma forma de recuperar os poderes perdidos no final de KH3D, Riku junta-se a Mickey para descobrir o paradeiro de Aqua, Terra e Ventus, os protagonistas de Birth By Sleep e Kairi juntamente com Axel treinam para se tornarem em mestres da Keyblade.

Do outro lado temos Xehanort, o antagonista introduzido em Birth by Sleep que tenta formar novamente a Organization XIII, de forma a forjar a X-blade, uma poderosa espada com a qual poderá controlar o poder de Kingdom Hearts. Para forjar esta espada, é necessário que se cumpra a profecia na qual 7 fragmentos de pura luz e 13 fragmentos de escuridão se defrontam em combate.

Ao longo da campanha, visitar vários mundos da Disney e reencontrar alguns dos membros da Organization XIII e é aqui que entra aquilo que disse acerca dos mundos servirem de plataforma para avançar a história de Sora, em vez de ser ao contrário.

Cada mundo, possui uma razão distinta por exemplo em Olympus, o mundo do Hércules, Sora tenta procurar ajuda com o mítico herói para saber como recuperar os poderes, que também ele perdeu durante o encontro com Hades. Em Arendelle, vemos como a Organization está interessada em saber se Elsa irá servir como pura luz, como as antigas princesas Disney, ou irá cair para o lado da escuridão. Em Toy Box, vemos como a Organization tenta perceber como é que os brinquedos podem ter corações, para poderem reproduzir isso nas suas réplicas e torná-las indistinguíveis de seres humanos.

Tudo isto serve para avançar a história e consegue integrar de forma excelente a presença dos inimigos em cada mundo. Em alguns destes mundos, temos histórias completamente originais por exemplo, Toy Box situa-se entre Toy Story 1 e 2, San Fransokyo conta os acontecimentos que se seguem a Big Hero 6 e Olympus também se passa depois dos acontecimentos do filme Hércules.

Algo que achei bastante interessante, foi o facto da história assumir uns contornos mais negros que o que vimos nos jogos anteriores. Não existe qualquer problema falar de morte e magoar de forma brutal os companheiros de Sora, especialmente no último ato da história.

Esse último ato, durou cerca de 4 horas e foram para mim, enquanto fã do jogo que jogou todos os jogos anteriores, as melhores 4 horas que já experienciei num jogo. As lutas finais, a música, as cinemáticas foram absolutamente perfeitas e foi possível rir, chorar e ter arrepios na espinha ao participar em lutas incríveis, que nunca imaginava viessem a acontecer.

A única queixa que tenho sobre a campanha, é a falta de foco que por vezes estraga o pacing. Por exemplo, existem alguns minijogos que podiam muito bem ser opcionais, como encontrar caranguejos no mundo das Caraíbas, encontrar as partes de Olaf em Arendelle ou ingredientes para cozinhar.

Também existem alguns problemas de pacing no que toca à parte relacionada com Aqua, Ventus e Roxas, que parecem algo abruptas em certas partes.

A história principal demora cerca de 25h na dificuldade Standard, o que se encontra em linha com os jogos anteriores. Ainda consegui obter a platina em cerca de 53h, sendo esta a mais acessível se compararmos às coleções da PS3/PS4.

Jogabilidade viciante e fluida

A jogabilidade em Kingdom Hearts sempre foi um dos pontos mais fortes, especialmente após o 2º jogo. Em Kingdom Hearts 3, temos algo que não chamaria evolução, mas sim consolidação das mecânicas anteriores.

Agora é possível equipar 3 Keyblades simultaneamente e trocar em tempo real durante o combate. Cada Keyblade possui habilidades que acumulam só por estarem equipadas, permitindo usufruir de certos bónus mesmo que não tenhamos intenção de as usar.

Ao atingir um certo número de golpes com as Keyblades, podemos utilizar a próxima forma das mesmas, sendo que algumas possuem até 2 formas adicionais. Estas formas introduzem habilidades exclusivas que só as podemos utilizar nesta forma e permitem combinações bastante destrutivas. Ao fazerem combinações com magia, podem utilizar o nível seguinte, sendo que o nível mais alto chamado Grand Magic, pode arrasar com uma horda inteira de inimigos.

 

Outra das novidades é o uso de atrações. Estes carroceis são inspirados nas versões existentes nos parques temáticas da Disney e a minha opinião sobre eles é mista. Por um lado, o efeito que oferecem é incrível e um regalo a nível gráfico. Por outro lado, tornam o jogo incrivelmente mais fácil, mesmo que algumas destas diversões nem causem assim tanto dano.

A principal razão, é o facto de poderem utilizá-las como escape numa situação complicada, uma vez que enquanto as usam recebem muito menos dano, podem continuar a causar dano e a vossa recuperação de magia mantém-se ativa. Isto é especialmente útil em combates mais complicados em que querem manter-se vivos até poderem usar magia de cura novamente. Para tornar isto ainda mais fácil, é possível desbloquear várias habilidades que aumentam a frequência com que podem usar as diversões, assim como o tempo que têm disponível para as ativar durante os combates.

Isto é um pouco contraditório com o resto do combate, que viu as magias defensivas desaparecerem, como Reflect ou Stop, Aero é agora uma magia totalmente ofensiva visto que já não é invocada à volta de Sora, mas sim no inimigo que temos como alvo e habilidades como as reprisals sofreram um nerf bastante grande face aos jogos anteriores.

Os Shotlocks são habilidades que sofreram um equilíbrio, uma vez que já não podem disparar várias vezes após atingirem o máximo de alvos, eliminando assim a quantidade absurda de frames de invencibilidade que tinham ao utilizá-los como acontecia em Birth by Sleep.

Os inimigos também possuem mais vida que nos anteriores, sendo que no final do jogo é comum encontrar inimigos comuns com 2-3 barras de vida, algo que não acontecia anteriormente. Ainda assim, o jogo parece extremamente fácil em Standard, pelo menos comparando aos anteriores, mas não é por ter inimigos mais fáceis, visto que possuem mais vida, nem que seja o jogador a sofrer menos dano, o que aliás é o contrário uma vez que com poucos ataques ficamos na zona vermelha.

A principal razão que torna este jogo tão fácil é a quantidade de instrumentos que temos para lutar. Para começar, as zonas onde lutamos são muito maiores que nos jogos anteriores, o que dá mais espaço para desviar dos ataques e recuperar tempo até podermos voltar a curar-nos. Depois, existe uma incrível quantidade de ataques diferentes que podemos usar, desde as formas das Keyblades, Grand Magic, Shotlocks, ataques do Flowmotion (estão de volta após KH3D), Links que equivalem aos antigos Summon e as várias diversões que podemos utilizar. Se são jogadores já veteranos de Kingdom Hearts (e por alguma razão ainda não compraram o jogo antes de ler esta análise) diria para começarem o jogo em Proud Mode, se quiserem ter algum desafio adicional.

Uma novidade bastante interessante, é o facto de podermos aumentar o poder das Keyblades utilizando certos materiais que encontramos ao longo do jogo. Isto evita que aconteça o mesmo que nos jogos anteriores, nos quais utilizávamos uma Keyblade durante um mundo e era imediatamente encostada ao recebermos uma nova. No último nível, todas as Keyblades possuem sensivelmente o mesmo poder, com algumas mais focadas em poder, magia ou nos dois. Como cada uma possui um estilo diferente, podem utilizar a que mais se adequa ao vosso estilo de jogo. Pelo menos até desbloquear a Ultima Weapon.

Esta arma é o topo das armas em Kingdom Hearts e a versão deste jogo é completamente absurda no que toca a poder. Além de ser a mais fácil de desbloquear entre todas as iterações desta arma que já apareceram, tem a capacidade de reduzir qualquer adversário à sua insignificância. Em Kingdom Hearts 2, com a Ultima Weapon, nível 99 e Final Form ainda tive algum trabalho com os bosses alternativos. Em Kingdom Hearts 3 foi absolutamente trivial e praticamente nem sofri dano.

Batalhas espaciais

As Gummi Ships estão de volta, para rejubilo de uns e desespero de outros. Estas secções sempre dividiram as opiniões dos fãs, mas acho que a versão de Kingdom Hearts 3 está muito bem feita. Agora existem 3 galáxias com inimigos e geografia completamente diferentes, que podemos explorar à nossa vontade.

Existem várias coisas para colecionar, desde fotos a constelações, esquemáticos de naves, materiais para sintetizar entre muitos outros. Também existem bosses opcionais escondidos, que oferecem as melhores naves do jogo, sendo que a nave de topo é o equivalente à Ultima Weapon do espaço.

Mais uma vez podem criar a vossa própria nave ou utilizar uma existente como base, sendo que agora podem até atribuir habilidades dependendo do vosso nível e existem imensas peças para colecionar e pinturas para a nave, tudo para que possam criar a maior aberração possível, pois funcionalidade é sempre melhor que design.

Ao entrarem em contacto com os inimigos que patrulham os céus (?) entram num combate cujo sistema funciona “on rails” tal como se viu em Kingdom Hearts 2. As lutas de bosses, especialmente as dos bosses alternativos são incríveis e lembram o estilo do que vemos em jogos clássicos como Gradius ou um dos meus favoritos da PS1, G-Darius. Achei bastante interessante o maior foco nesta componente do jogo, especialmente se quiserem obter os itens para melhorar os equipamentos no endgame.

Após terminar a campanha e o futuro de Kingdom Hearts

Falando em endgame, o de Kingdom Hearts 3 é surpreendentemente curto. Apesar de Kingdom Hearts 2 Final Mix e Birth By Sleep Final Mix terem endgames enormes, especialmente com a quantidade de bosses alternativos que puxam completamente pelas vossas habilidades, Kingdom Hearts 3 está mais ao nível de Kingdom Hearts 2 quando saiu na Europa.

Existem pequenas arenas chamadas Battlegates, que colocam vários inimgos contra vocês, geralmente em 2-3 hordas que têm de derrotar. Completar estes Battlegates oferece um Secret Report que contém informação adicional acerca da história e peças de equipamento.

Ainda existe um boss alternativo num destes Battlegates, que sinceramente é bastante acessível com o equipamento que falei anteriormente e nada que se compare ao que foram os bosses de KH2 e Birth By Sleep.

Também existem outros minijogos, como os Pudins Flan que oferecem 7 desafios diferentes, Verum Rex que é um jogo existente em Toy Box que surpreendentemente possui um papel muito interessante no futuro de Kingdom Hearts, deslizar no gelo em Arendelle ou dançar com Rapunzel em Corona. Estes minijogos são bastante simples, pelo menos comparando ao sofrimento que foi fazer os desafios dos Mushroom XIII em Kingdom Hearts 2.

Ao longo da campanha, existe uma espécie de história paralela que acaba por não ter impacto na história principal. Após ver o epílogo temos a confirmação de que Kingdom Hearts 3 não é o fim da série mas sim, tal como Tetsuya Nomura tinha dito, o fim da saga de Xehanort. O final secreto dá a entender que Kingdom Hearts 3 pode vir a receber conteúdos e não seria contra ver algo como os antigos Final Mix ser lançado, agora para todo o mundo em simultâneo sob a forma de um DLC.

Gráficos, performance e som

Graficamente, Kingdom Hearts 3 é bastante interessante. Existem inúmeros efeitos de alta qualidade, especialmente durante os combates que são um completo festim para os olhos. Apesar de existirem algumas texturas mais esbatidas e de menor qualidade, na verdade todo o jogo é um feito a nível gráfico. Isto porque finalmente conseguimos colocar toda a qualidade de um filme da Pixar dentro de um jogo. Isto é especialmente incrível em Toy Box, que sinceramente parece ser melhor a nível gráfico que o filme Toy Story original.

A performance, pelo menos na PS4 Pro, é muito boa tendo o jogo mantido as 60 FPS durante todo o tempo, com a exceção do mundo das Caraíbas que foi onde notei as maiores quedas de FPS. Ainda assim, este é o mundo que puxa mais a nível gráfico e tem um mundo incrivelmente detalhado e sem loadings para explorar. Em alguns locais com florestas, o jogo lembrou-me Uncharted 4 a nível gráfico, portanto acho que se justificam alguns soluços.

A nível de som temos mais uma vez um trabalho incrível. O voice acting não está tão “cheesy” como em jogos anteriores, muito devido ao facto de vários atores terem envelhecido entretanto. A banda sonora deixou-me completamente viciado, especialmente as lutas de bosses do último ato, entre as quais existe uma que para mim é a melhor música de boss que já ouvi.

Algo bastante interessante, foi o facto de todas as falas do jogo terem sido gravadas, ou seja, já não existem balões com texto como antigamente. A interação com os companheiros de equipa também está muito mais natural, sendo que agora falam durante a exploração e combates, com claras influências de Final Fantasy XV a virem ao de cima. É engraçado que o Pateta tem falas que me lembram as de Ignis, mostrando que o papel de Nomura em Final Fantasy XV também ajudou no desenvolvimento de Kingdom Hearts 3.

Conclusão

Kingdom Hearts 3 valeu a pena a espera. A conclusão da história de Xehanort está incrivelmente bem feita e a única falha foi mesmo no desenvolvimento de certas partes, que parecem ligeiramente apressadas.

Existe imenso jogo em Kingdom Hearts 3 e, apesar de possuir menos mundos que anteriormente, cada um possui um papel e mecânicas únicas, cada mapa é absurdamente grande e com imensos segredos para descobrir e ao terminar o jogo, só queria mais conteúdo. É dos poucos casos em que realmente quero que seja lançado conteúdo adicional.

Se não jogaram os anteriores, convém pelo menos ver os vários vídeos existentes na Internet que contam os acontecimentos e se tiverem dúvidas, muito provavelmente terão um amigo que já jogou os anteriores e terá todo o gosto em vos ajudar.

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Final Score