Review – Fallout 76

Failout

Review dos Leitores0 Votes0
Variedade de localizações no mapa
Graficamente horrível
Performance muito pobre
IA inexistente
Mecânicas muito mal implementadas
Quase total ausência de endgame
PVP simplesmente não funciona
30

Com a mais recente moda dos Live Services, parece que todas as empresas de videojogos querem apostar em ambientes multijogador, principalmente por serem mais fáceis de monetizar. No entanto, nem todas as franchises transitam bem para multijogador e Fallout 76 expõe isto de uma forma incrível.

Neste Fallout, somos encarregues de entregar um pacote importante, no entanto, somos intercetados e alvejados por um personagem misterioso, sendo deixados para morrer no deserto. Após recuperar deste ataque, temos de perseguir este homem e recuperar o pacote perdido.

O mundo de jogo é muito bem feito e mostra a forma como seria a sociedade pós-apocalítica de forma crua e desoladora, com diversas fações a lutarem constantemente pelo poder. O sistema de combate não é o ideal mas o sistema VATS permite compensar muitas imperfeições ao permitir alvejar partes específicas do corpo dos inimigos, levando a uma explosão de sangue.

A história possui diversos finais que dependem das nossas escolhas e compelem o jogador a repetir a campanha, para descobrir todos estes finais.

Provavelmente estão a achar estranho e familiar este texto. Isso deve-se ao facto de que o jogo descrito acima não é Fallout 76, mas sim Fallout New Vegas, o último bom Fallout e o jogo que imediatamente instalei para lavar os olhos e a mente, após jogar Fallout 76 durante 10 minutos.

Isto porque Fallout 76 é um jogo atroz e um insulto aos fãs da série e da Bethesda em geral. Então vejamos.

História inexistente

Antes de analisar a sério este jogo, confesso que apenas consegui colocar cerca de 10h em Fallout 76. São 10h da minha vida que nunca vou conseguir recuperar, mas simplesmente não conseguia jogar mal uma vez que cada sessão me deixava, literalmente, enjoado.

Fallout 76 assume-se como uma prequela a Fallout, no qual jogamos com um dos residentes do mítico Vault 76, mencionado nos outros jogos como sendo um dos primeiros Vaults a abrirem após o desastre nuclear que arrasou o mundo.

O conceito do jogo não é mau, uma vez que o objetivo é fazer os jogadores explorarem a região da West Virginia nos EUA, para que possam criar as suas próprias cidades e comunidades, defendendo-as e expandindo-as à medida que mais jogadores se juntam em clãs.

Infelizmente a motivação para o fazer é zero. Para começar, a história principal é seguir um rasto de migalhas ao longo dos vários pontos do mapa, para encontrar gravações deixadas pela Overseer do nosso Vault, no qual vamos descobrir mais detalhes sobre a sua vida.

Isto não faz sentido nenhum, uma vez que ao contrário dos outros Fallout, não temos qualquer desenvolvimento dos outros moradores do nosso Vault, visto que ao iniciar o jogo, saímos de lá cerca de 5 minutos depois.

Depois, não existe qualquer NPC humano no jogo, o que faz o mapa (bastante extenso) parecer ainda mais vazio e sem vida, uma decisão que ainda faz menos sentido quando nos jogos anteriores nos disseram que existiam comunidades que sobreviveram sem nunca ir para um Vault.

A maioria da Lore deste jogo é exposta apenas por gravações ou enormes textos presentes em mensagens, tornando a sua leitura uma enorme seca e um perigo, uma vez que não se pode fazer pausa no jogo. As gravações não são o ideal, visto que a maioria dos sons se sobrepõem às falas e ainda pior, caso estejam a falar nos microfones com amigos.

O endgame do jogo é inexistente, eventualmente vão encontrar um silo de mísseis do qual podem disparar bombas nucleares. Na zona afetada vão aparecer os mesmos inimigos do costume, mas a um nível mais alto. Os códigos estão espalhados ao longo do mapa, sendo obtidos ao derrotar inimigos com um rádio às costas. Infelizmente, o código nunca muda o que levou à criação de vários sites com os códigos, destruindo completamente o propósito do jogo.

Jogabilidade da idade da pedra

A série Fallout (desde o 3) nunca foi conhecida por ter um gameplay excelente. Os jogadores deixavam passar porque o sistema VATS funcionava bem e o foco do jogo era a narrativa. Mas o que acontece quando estes dois elementos são retirados: Fallout 76.

Já vimos que a narrativa não existe e, infelizmente, o gameplay também não ajuda a carregar este jogo. É incrivelmente impreciso, as armas não possuem impacto nenhum e o sistema VATS foi transformado num aimbot mal implementado.

O recoil das armas torna muito complicado seguir os inimigos, uma vez que as armas ocupam mais de metade do ecrã, os movimentos dos inimigos são de rir, ora andam em câmara lenta (literalmente), ora passam dos 0 aos 100 em 2 segundos e esquivam-se das balas de forma quase mágica. Nem vamos falar de quando as animações não carregam e os vemos deslizar até nós, como se fossem alvos de cartão numa carreira de tiro. Armas de corpo a corpo também não registam bem, mas são mais consistentes que as armas de fogo.

O VATS é simplesmente impossível de utilizar, visto que o movimento dos inimigos faz com que a percentagem de acertar passe dos 100% aos 0% numa fração de segundo.

A progressão é interessante, mas podia ser melhor implementada. Sempre que sobem de nível, recebem um ponto que podem distribuir pelos clássicos S.P.E.C.I.A.L., sendo que os perks vêm em cartas aleatórias que podem subir até 3 estrelas. Ao ter várias cartas do mesmo nível, podem fundi-las e assim obter a mesma carta um nível acima, aumentando os bónus que confere. O nível também vai requerer mais pontos, pelo que têm de saber jogar com isto.

Os dois problemas com a progressão são a falta de liberdade que o jogador tem ao escolher os perks, visto que está dependente de saírem ou não as cartas certas e muitas vezes fica de mãos atadas porque precisa de uma carta um nível acima e não a tem. Isto é especialmente agravado no que toca aos skills Lockpick e Hacking. O segundo problema, é que não ganham mais pontos após o nível 50 e nem podem realocar os pontos que já têm, sendo que se querem experimentar combinações diferentes, têm de criar um personagem novo e sofrer o jogo inteiro mais uma vez.

A quantidade de dano que causam também é estranha, visto que (com ajuda da péssima IA), conseguem derrotar inimigos muitos níveis acima do vosso sem qualquer problema. As zonas do mapa também não possuem níveis definidos, o que pode ser extremamente frustrante quando do nada aparece um bando de ghouls armados que estão a nível 40 e vocês a um mísero nível 10.

Colecionador de lixo

Fallout 76 assume-se como um jogo de sobrevivência, um género que está já no esquecimento numa altura em que os Battle Royale dominam o mercado. Apesar de não querer um Fallout Battle Royale,  jogo devia ter sido criado como um “looter shooter” ao estilo de Destiny ou Borderlands.

As mecânicas de sobrevivência simplesmente não funcionam. Tudo está feito para ser um ciclo de dor ou algo incrivelmente aborrecido. A comida e bebida são bastante escassas e, a menos que as cozinhem, vão sempre reduzir a vossa saúde devido à radiação existente.

O dinheiro, tal como nos outros jogos, são as caricas das garrafas mas estas são também escassas e tudo no jogo requer estas caricas, principalmente se quiserem fazer fast travel, cujo custo aumento consoante a distância.

Ainda assim, o pior é o sistema de crafting. Introduzido em Fallout 4, não era um sistema muito refinado, mas em Fallout 76 é simplesmente horrível, uma vez que os materiais são muito mais raros e difíceis de obter.

Durante todo o jogo, vão andar à procura de lixo, literalmente lixo. Ao desmantelarem este lixo, vão obter materiais que vão usar para tudo o que seja crafting. O problema, é que os principais materiais que precisam de ter raramente aparecem ao desmantelar o lixo, fazendo com que tenham de apanhar tudo o que vos aparece à frente.

Isto leva a outro problema, a quantidade de itens que podem carregar que é ridiculamente baixa. Ao carregarem demais, vão ficar num estado de over encumbered que impede que façam fast travel ou corram.

Dado que os materiais importantes são raros, vai-se tornar muito complicado repararem ou fazer upgrades às vossas armas favoritas. Isto faz com que tenham de usar armas que encontram nos inimigos mortos, que causam menos dano e ocupam muito espaço no inventário, o que leva a que consigam carregar menos lixo e, por conseguinte, menos materiais para crafting.

Como disse, todo o sistema de sobrevivência deste jogo foi feito com o intuito de se tornar num ciclo de escassez e sofrimento para o jogador. A gota de água para mim, foi o facto de que, por alguma razão, o vosso personagem continua a sofrer de fome e sede com o jogo desligado, quase como um Tamagochi e todos sabem o que acontece eventualmente.

Antes de desligar, tinha gasto os poucos alimentos para retirar o meu personagem de um estado de fome. Tal foi a minha incredulidade quando ao ligar novamente o jogo, vejo que o meu personagem está a sofrer de “starvation”. Isto faz com que, inicialmente, consigam correr menos tempo e eventualmente começam a perder saúde. Como tinha gasto o dinheiro que tinha em materiais para reparar as armas, não podia fazer fast travel para a cidade mais próxima, onde poderia vender alguns itens para comprar comida.

Pior, quando consegui algumas caricas, o meu personagem começou a perder saúde ao longo do tempo e, por estar a sofrer dano, também não conseguia viajar para a cidade, deixando-me no meio do nada apenas a ver o personagem morrer.

O jogo permite PVP, mas o sistema é tão mal implementado que ninguém faz uso disto. Ao matarem um inimigo, a vossa recompensa é mísera, os adversários não perdem nada e enquanto não devolverem fogo, o dano que os inimigos vos causam é absurdamente baixo.

Um sistema que ainda faz menos sentido, é o de pacifista. Este sistema desliga o dano aos outros jogadores, evitando assim dano involuntário que pode dar início a um confronto PVP. No entanto, os outros jogadores ainda vos podem atacar, deixando-vos sem maneira de se defenderem. Pior ainda, podem ver onde todos os jogadores estão em qualquer lugar do mapa, fazendo com que seja extremamente fácil perseguirem e assediarem um único jogador até que ele seja forçado a sair do jogo.

No entanto isto não é um problema porque ninguém faz PVP neste jogo, portanto…

Gráficos maus, performance ainda pior

Graficamente, Fallout 76 é um jogo que no tempo da PS2 seria mau. Ok talvez não, mas é muito, muito mau nos dias que correm ver um jogo com este aspeto, feito por um estúdio de renome. Desde texturas em baixíssima resolução, um sistema de iluminação que desafia as leis da física e permite que os raios de luz atravessem o chão.

A única coisa boa a nível gráfico, é a paleta de cores escolhida, substituindo o cinzento ou amarelado predominante nos outros jogos Fallout, por um esquema de cores mais vivo e variado.

O mapa também possui uma boa variedade de localizações, sendo o mais interessante entre os Fallout modernos, o que ainda dá mais pena que um mundo de jogo tão interessante tenha sido utilizado num jogo tão abominável.

A performance do jogo (especialmente nas consolas) é o pior de tudo. Posso suportar maus gráficos e más mecânicas, sofrer tudo isto abaixo das 20 FPS é inadmissível. O elemento do jogo que sofre mais com isto é o combate, uma vez que sempre que um inimigo se aproxima de vocês, o jogo cai para baixo das 20 FPS, tornando praticamente impossível seguir o inimigo. Ao disparar armas automáticas, ocorre o mesmo e tudo isto combinado torna o jogo praticamente impossível de jogar.

Isto leva ao pior elemento gráfico do jogo. Para manter a performance, a Bethesda introduziu um forte efeito de Depth of Field e Motion Blur que não podemos controlar nas opções (pelo menos na versão de consola).

Isto faz com que pareça que estão a jogar com miopia, visto que o cenário a poucos metros à vossa frente está completamente desfocado. Isto aliado ao Field of View muito estreito, faz com que cause não consigam jogar por mais de alguns minutos caso sofram de enjoo de movimento, o que é o meu caso. Se fizessem uma versão VR deste jogo, seria bom para desafiar amigos para quem vomita primeiro.

O design de som também deixa a desejar. Apesar de possuir boa banda sonora, no que toca a passos ou sons dos inimigos, o jogo nunca vos deixa perceber a direção correta. Por vezes ouvem vozes de inimigos do lado esquerdo, olham e não veem nada, apenas para serem atacados pela direita. Os vossos passos são tão altos e a localização parece atrasada, dando a ideia que alguém está a correr atrás de vocês.

Além disso existem os mais diversos bugs gráficos, física impossível especialmente na versão de PC que corre a maior framerate, inimigos e elementos que fazem pop-in à vossa frente, muitas vezes a várias dezenas de níveis acima do vosso.

A IA é simplesmente inexistente, os inimigos a maioria das vezes ficam parados no local enquanto disparam contra eles, são incrivelmente fáceis de explorar e fechar em locais apertados para depois os derrotarem, muitas vezes, especialmente inimigos de maiores dimensões ficam presos na geometria do mapa e simplesmente morrem, entre muitos outros incluídos num dos maiores cardápios de bugs que já vi num jogo AAA.

Conclusões

Fallout 76 é um péssimo jogo a todos os níveis. É também o jogo que expõe todas as más práticas da Bethesda no que toca ao desenvolvimento de jogos. Até agora muitos destes problemas foram perdoados, porque os jogos possuíam boa narrativa, boas atividades e as mecânicas eram bastante sólidas. Em Fallout 76, não existe nada disso e desta vez os modders não estão cá para salvar o jogo.

Para adicionar ainda mais insulto, a única coisa que funciona sem problemas neste jogo é a loja de microtransações, com coisas ridiculamente como tintas por 7€, entre outras, num modelo que me faz lembrar o defunto Evolve. E nem vou falar das controvérsias que têm rodeado o jogo, especialmente a edição de colecionador ou a recente fuga de informações pessoais no sistema de tickets de ajuda.

Não prevejo que Fallout 76 viva por muito tempo no estado em que está e nem com a redução para metade do preço consigo recomendar este jogo.

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Final Score