Review – Anthem

Potencial para cantar mais alto

Potencial desperdiçado
Anthem podia ser o Destiny killer que muitos queriam, mas existem muitos problemas que precisavam de mais tempo no forno para tornar Anthem no jogo que merece ser. No entanto existe potencial para crescer.
O bom
Excelente jogabilidade
Gráficos de alta qualidade
O mau
Loot pouco recompensador
Graves problemas de performance
Atividades e inimigos genéricos
Endgame muito escasso
60
Mediano

Os últimos meses não têm sido de verdadeiros altos e baixos para a EA. Battlefield 5 foi um retrocesso em muitos aspetos na série mas por outro lado, lançaram o excelente e popular Apex Legends completamente do nada.

Anthem foi um jogo que acompanhei bastante desde o anúncio, ou não fosse Destiny uma das séries que mais joguei nos últimos anos portanto mais um “looter shooter” para fazer competição e ajudar a mudar de ares seria muito bem-vindo.

Após ter jogado as duas demos, privada e pública, fiquei bastante decepcionado com o jogo, uma vez que existiam graves problemas a nível de design e performance que impediam Anthem de ser um jogo verdadeiramente interessante. Dado o curto espaço de tempo entre as demos e o lançamento do jogo, tinha sérias dúvidas que isto fosse corrigido e, infelizmente, tinha razão.

Um universo à espera de ser explorado

Para começar queria deixar dois comentários: a versão que recebemos foi a do dia de lançamento ou seja, já incluía o update de dia 1 portanto muitos dos problemas com loadings que se tornaram famosos durante o acesso antecipado, não me afetaram tanto o que não significa que não existam na mesma problemas com loadings. Segundo, vou fazer algumas comparações com Destiny visto que é um jogo do mesmo género que sofreu muitos dos problemas que afetam Anthem e conseguiu atingir um patamar de alta qualidade ao longo dos últimos anos.

Anthem coloca-nos no papel de um Freelancer, um soldado contratado para missões que possui uma armadura especial chamada Javelin. Uma das boas decisões de Anthem é o facto de o nosso Freelancer não ser mudo, interagindo de forma bastante frequente com os outros NPCs do jogo.

Isto permite ao jogador uma maior proximidade, especialmente devido ao facto de existirem escolhas nos diálogos ao longo da campanha. No entanto, as escolhas não influenciam a história e são incrivelmente simplistas, ao contrário do que se viu em jogos anteriores da BioWare.

Algo que a Bioware mantém de grande qualidade é o mundo que cria dentro do jogo. O mundo de Anthem é incrivelmente detalhado, com fauna e flora únicas, arquitectura medieval e futurista combinadas para um contraste soberbo.

A lore do jogo também é bastante interessante, com vários contos sobre cavaleiros ao estilo do rei Artur, mas que em vez de armaduras pilotavam estes Javelins e defrontavam raças de alienígenas. Além disso, também podemos conhecer mais sobre os vários NPCs e fações ao ler o Codex, o local onde se encontra toda esta lore. Apesar de não ser, para mim, a melhor forma de expor um mundo tão rico como este, sempre é melhor que estar fora do jogo como aconteceu com o Destiny original.

A história tem bastante potencial, mas acaba por ser estragada por missões de padding extremo, desenvolvimento apressado dos personagens e uma missão final que culmina num boss básico, aborrecido e que simplesmente dá menos trabalho que alguns dos mini bosses que encontramos ao longo da campanha.

As missões pecam imenso pela falta de variedade. No fundo acabamos por ter apenas dois tipos de missões: guardar algo enquanto hordas de inimigos se atiram contra nós, sendo estes bastante genéricos e reduzidos a 4 principais fações, ou então temos de apanhar algum tipo de item e levá-lo para um ponto central para desbloquear alguma porta.

Existem dois ou três puzzles durante a campanha, mas são bastante simples e apesar de não haver problema enquanto jogamos a solo, quando estamos em cooperação seria interessante mudar estes puzzles para necessitarem de algum tipo de mecânicas que fizessem uso dos 4 jogadores.

Os inimigos também possuem uma IA bastante má, mas sinceramente nem me faz muita confusão uma vez que a maioria dos inimigos neste tipo de jogos serve mais de carne para canhão. Infelizmente duas das fações possuem, basicamente, o mesmo tipo de ataques entre as classes especiais.

A campanha dura cerca de 20 a terminar, mas sensivelmente metade é perdida em missões de encher chouriço ou “fillers”. Felizmente a pior culpada foi corrigida no patch de dia 1, que passou a contabilizar alguns objetivos baseados no que fizeram até chegar a essa parte da história, mas a missão aparece tão cedo que a maioria dos objetivos estão por cumprir.

Resumindo, a história é bastante confusa, apressada numas partes e arrastada noutra e sem a qualidade que a BioWare já nos habituou. No entanto, o final ficou em aberto, provavelmente para ser continuada numa expansão futura, que pode vir a melhorar bastante a forma como a BioWare implementa “storytelling”, o design das missões, etc.

Iron Man simulator 2019

O melhor que Anthem tem para oferecer é a jogabilidade. Nunca um jogo nos deu uma sensação tão incrível de liberdade a voar, que nos faz sentir um autêntico super-herói estilo Iron Man.

Algo que gostei bastante foi o tempo reduzido de cooldown das habilidades, que nos faz sentir bastante poderosos, especialmente com Storm que pode fazer chover trovões sobre os inimigos, deixá-los congelados ou a arder, estado que pode ser aproveitado para criar um combo.

Este sistema de combos é bastante interessante, uma vez que permite causar enormes quantidades de dano, especialmente se estiverem em equipa e a comunicar devidamente.

No entanto sofre bastante por não existir um verdadeiro tutorial para treinar estes combos, sendo que ou descobrem como se faz por acidente, ou vão ver na Internet. Ao aprenderem a ligar estes combos, vão conseguir atingir o máximo potencial no combate.

O sistema de voo recebeu um update bastante agradável na versão final do jogo. Agora é bastante mais fácil de controlar com o rato, apesar de ser ainda possível afinar a sensibilidade nas opções. Este sistema é usado não só para atravessar o vasto mundo aberto, mas também para fugir durante o combate ou ganhar uma posição mais privilegiada.

Existe um sistema de aquecimento, que impede que voemos indefinidamente, mas podemos estender este tempo ao passar rente à água, obtendo um estado de arrefecimento ou reiniciar completamente o temporizador ao submergir na água ou passar por cascatas.

Os vários Javelins são bastante distintos uns dos outros, sendo o meu favorito o Interceptor, a unidade mais rápida e ninja, seguido de Storm o equivalente ao mago. Ranger é a classe mais equilibrada, mas também a mais genérica, sem nada de grande distinção tirando o ultimate que é bastante divertido. Colossus é a classe tanque do jogo e bastante intimidante, capaz de não só defender os aliados, como causar enormes quantidades de dano aos inimigos.

Cada Javelin possui diferentes habilidades que podemos obter ao derrotar inimigos. Apesar de lhes chamar habilidades, na realidade estão mais para equipamentos que possuem certas funções para um Javelin específico. No entanto tive pena de não ser possível criar presets de habilidades que permitisse trocar entre elas durante o combate, ao que aumentaria a profundidade do mesmo.

Todos os equipamentos vêm com raridades, tal como é comum em RPGs baseados em loot. No entanto, o loot em Anthem é simplesmente pouco recompensador e cada raridade aumenta  dano e introduz novos perks, mas o problema é que não existe um sistema de “infusion” como em Destiny, o que significa que não podem simplesmente utilizar equipamentos novos e mais poderosos como alimento para aumentar o nível daquela arma espetacular com um grande “roll”.

Isto faz com que uma das principais atividades num looter shooter, que é criar aquela build perfeita e destruidora, se torne em algo exageradamente baseado na sorte, pelo que nem vale a pena pensarem nisso até chegarem ao nível máximo.

Os itens de maior raridade, Masterworks, são incrivelmente difíceis de obter e a forma como se faz está completamente errada uma vez que a BioWare os colocou na tabela de loot de baús que podemos encontrar no mundo de jogo, tornando praticamente inúteis as atividades de alto nível como forma de obter este equipamento poderoso.

Até chegarem a nível máximo e começarem a poder jogar nas maiores dificuldades, onde a probabilidade de obter Masterworks é maior, o loot que obtemos é completamente banal. Felizmente, a BioWare atualizou o jogo para evitar que consigamos ter em demasia itens abaixo de Raro quando estamos num nível alto, mas até lá chegarmos vamos ter cerca de 40h de jogo pela frente sem loot de jeito.

No meu caso, tive sorte de me sair uma arma lendária logo nos primeiros níveis, mas a ausência do sistema de infusion significa que tive de a colocar de lado após passar o nível a que vinha. Existe ainda muito trabalho para tornar o loot recompensador.

As atividades end game, que iremos repetir vezes sem conta enquanto procuramos os equipamentos Masterwork, são bastante escassos sendo que a principal atividade são os Strongholds. Estes níveis são uma espécie de Strikes como vemos em Destiny mas com a estrutura de uma raid, ou seja, temos alguns encontros que oferecem um baú ao serem completados, com uma luta de boss no final.

No entanto, estes encontros não possuem mecânicas diferentes daquilo que fizemos durante toda a campanha e mesmo os bosses são bastante diluídos, no que toca a rotinas de ataque e as mecânicas em si.

A verdade é que as raids de Destiny estão entre o melhor conteúdo PVE que podem jogar num looter shooter atualmente, pelo que gostaria de ver algo semelhante implementado em Anthem num futuro próximo.

O modo Freeplay permite explorar o mapa à vontade, mas por alguma razão foi decidido que era necessário fazer matchmaking. Após estarmos dentro da atividade, podemos ir à nossa vida, mas isto leva a outros problemas.

Para começar, o mapa é demasiado grande e como é só uma instância, torna-se raro encontrarmos outros jogadores a não ser que os procuremos.

Depois, não existe forma de comunicar com os outros jogadores, visto que não existe chat, que é um grande problema principalmente em missões quando somos derrotados e os nossos colegas de equipa estão completamente distraídos.

Em certas alturas, vão aparecer eventos mundiais nos quais os jogadores podem participar, mas estes não aparecem no mapa só quando, por acaso, chegam à zona onde estes vão ocorrer o que significa que a maioria dos jogadores na instância nem vão saber que tal evento está a acontecer.

O facto de não ser possível selecionar pontos no mapa, ou viajar rapidamente entre os vários pontos de spawn é algo que gostaria de ver alterado no futuro.

Gráficos, performance e som

Graficamente, Anthem é um jogo muito bom ou não fizesse uso do Frostbite que nos ofereceu jogos visualmente deslumbrantes como Star Wars Battlefront ou Battlefield.

No entanto, no que toca à performance, está muito mau se considerarmos que Battlefront e Battlefield até possuem uma performance bastante aceitável.

Existem quedas de FPS que não se entendem e o mundo não é propriamente interativo o suficiente para as justificar, visto que não existe destruição dos cenários.

O pior caso é em Fort Tarsis, o HUB do jogo no qual a perspetiva muda para primeira pessoa e possui quedas de FPS absurdas, ao ponto de conseguir uma média de 60-70 FPS fora de Fort Tarsis, mas lá dentro não me passa das 40.

Apesar de não sentir tanto o problema dos loadings como aqueles que jogaram o Early Access, o jogo possui na mesma demasiados ecrãs de carregamento.

Sempre que mudam de área, existe um loading, quando se afastam muito dos companheiros: loading, quando e querem mudar o equipamento na Forja: loading, quando saem da Forja: loading. Por acaso instalei o jogo no meu SSD M.2 e os loadings não passavam de 10-15 segundos no pior caso, mas são bastantes vezes a ver estes ecrãs.

Se jogarem sozinhos, este tempo é ainda mais reduzido, no meu caso nem 2 segundos demorava. Mas como as recompensas por jogar sozinho são demasiado baixas, além de tornarem o jogo muito mais difícil e demorado, não existe outra escolha senão o Matchmaking, que aumenta bastante a duração destes loadings.

É pena tanto ecrã de carregamento que tira a sensação de estarmos num mundo aberto. Seria preferível dividir o mapa em instâncias, tal como ocorre em Destiny 2, mas com transições “seamless” sem qualquer loading. Isto também poderia resolver o problema do Freeplay no qual não podemos ir solo.

No que toca a som, achei a banda sonora boa, o voice acting bastante competente e existem certos elementos de gameplay que são auxiliados pelo som, como as dicas sonoras de que um inimigo foi alvo de um combo, sendo que podem imediatamente voltar as atenções para ele e ajudarem a causar dano.

Conclusão

Anthem é um jogo cujo potencial podia ter sido melhor aproveitado com mais alguns meses de desenvolvimento.

As bases estão muito boas, no que toca a jogabilidade e variedade entre os Javelins, mas tudo o resto sofre bastante, com looter pouco recompensador, atividades e inimigos genéricos e a quase total ausência de endgame.

Vamos esperar que o futuro seja mais mais risonho para Anthem.

 

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Final Score

2 × 5 =