Análise: Vampyr - Consulta com o vampiro
Excelente ambienteDecisões que importamCombate simples mas vicianteBom voice acting
Problemas técnicosMovimentação muito trapalhonaHistória torna-se previsível
70%Overall Score

Apesar de ser um género bastante popular no mundo do cinema, os jogos de vampiros são relativamente escassos e muito menos, os que são bons. Vampyr foi um jogo que veio um pouco do nada, ainda para mais sendo da Dontnod cujo último sucesso foi um jogo baseado em diálogo, Life is Strange, que agora apresenta um RPG de ação.

Infelizmente, apesar de ser um jogo acima da média, o mal de Vampyr é mesmo ser um RPG de ação, quando provavelmente seria muito melhor enquanto “simulador” de vampiros, cujas mecânicas são a melhor parte do jogo.

Vampyr é um RPG com vampiros, criado pela Dontnod

Doutor Vampiro

A história de Vampyr segue o médico Jonathan Reid, especialista em transfusões de sangue que acorda no meio de uma vala comum em Londres, no ano de 1918, ironicamente, transformado em vampiro. No entanto, o facto de estar tanto tempo caído levou a uma sede cega, fazendo com que acabe por tirar a vida a um ente querido.

Agora, consumido pela culpa, Jonathan tenta a todo o custo descobrir a origem do seu problema, enquanto tenta curar uma epidemia que está a levar Londres à destruição, com os pobres a morrerem e os ricos a fazerem de tudo para aproveitar ao máximo com as suas agendas secretas.

Londres de 1918 está incrivelmente bem retratada, com a arquitetura detalhada, nevoeiro constante que dá um ar extremamente pesado, assim como um belo contraste entre as zonas ricas com mansões requintadas e as favelas com becos compostos por barracões, docas e corpos mortos espalhados pelo chão.

Londres oferece um ambiente pesado, muito por culpa da guerra e da doença

Jonathan é abalroado de diversas frentes, uma vez que enquanto médico tem de honrar o seu juramento de curar os doentes, mas enquanto vampiro tem de garantir a sua sobrevivência e evitar que a sua condição se deteriore. Além disso, tem de sobreviver aos ataques constantes de caçadores de vampiros e monstros que vagueiam pelas ruas e garantir que as conspirações dos ricos não dividem a cidade ao meio.

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Esta componente social é, de longe, a melhor parte de Vampyr. Existem aqui vários dilemas morais que o jogador tem de enfrentar e é importante, pelo menos numa parte inicial do jogo saber equilibrar a necessidade de curar, com a necessidade de alimentar.

A dificuldade do jogo depende das vezes que se alimentam. Isto deve-se ao facto de a maior parte da vossa experiência ser ganha ao sugarem o sangue das vitimas. Este sistema está muito interessante, uma vez que se o fizerem, vão ganhar um enorme bónus de experiência com a maioria dos habitantes, mas por outro vão reduzir a saúde do bairro a que a vítima pertence.

Se não mantiverem os bairros saudáveis, vão começar a ocorrer assassinatos e vão perder a possibilidade de se alimentarem de outras vítimas. Além disso, após um determinado nível, vão começar a aparecer inimigos mais poderosos e complicados de lutar, tornando as missões mais difíceis.

Enquanto médicos, é vosso dever manter os bairros livres de doença… ou não

Pessoalmente, não senti necessidade de assassinar ninguém até bem quase no fim do jogo, quando decidi experimentar dizimar um bairro inteiro para ver o que acontecia.

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A campanha dura cerca de 20 horas,  o que não é nada mau para um RPG de ação cujo mapa nem é muito grande. Ainda existem várias missões secundárias para completar, mas cuidado que muitas podem desaparecer se a pessoa envolvida morrer.

A história em si consegue agarrar pela componente de investigação e mundo interessante. No entanto, mais para o final começa a tornar-se bastante previsível e as origens dos poderes de Jonathan, apesar de não serem tão previsíveis, podiam ter sido melhor desenvolvidos e fazer uso de um folclore mais conhecido.

Diálogo que importa (na maioria das vezes)

Tendo vindo de Life is Strange, seria expectável que a Dontnod colocasse em Vampyr uma forte componente de diálogos. Estas conversações são totalmente faladas, não existe conversas por texto, o que torna os diálogos mais imersivos.

Ao longo do jogo, o jogador vai ser confrontado com diversas escolhas. Apesar de várias acabarem por dar o mesmo resultado, existem muitas que decidem quem vive ou morre, alterando por completo o estado dos bairros e pode levar a combates inesperados.

Apesar de muitas opções oferecerem o mesmo destino, outras alteram o mundo de jogo e até a progressão

Os diálogos também são importantes caso queiram ganhar o máximo de experiência possível. Cada habitante da cidade, possui um nível de experiência que podem obter ao sugar o seu sangue, ou qualidade do sangue. A qualidade do sangue aumenta ao descobrirem pistas sobre a vida dessas pessoas.

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Para obterem pistas têm de conversar com outras pessoas do mesmo bairro, que por vezes vos vão levar a decisões que desbloqueiam essas pistas, permitem descobrir ligações entre habitantes ou, caso falhem, impede que atinjam o potencial máximo de cada habitante.

Também podem obter pistas descobrindo cartas ou outros colecionáveis espalhados pela cidade. Estas cartas são bastante interessantes e, além de desenvolverem os habitantes contando os seus motivos, ainda oferecem uma visão sobre o mundo de jogo, o estado psicológico dos seus habitantes, entre outras histórias.

Também têm de ter cuidado com as doenças que os habitantes podem contrair. Além de reduzir a saúde do bairro e ocorrer o risco de propagação, cada habitante doente vê a sua qualidade do sangue reduzida drasticamente até serem curados.

Para os curarem, têm de produzir os medicamentos, fazendo uso das mesas existentes nos esconderijos. Estes materiais são obtidos ao explorarem os cenários e, derrotando inimigos. No entanto, alguns dos medicamentos só podem ser feitos com receitas. Estas receitas são obtidas falando com certos habitantes, pelo que é mais uma razão para terem cuidado antes de decidirem matar alguém.

Combate e progressão

Sendo um RPG de ação, é esperado que exista algum tipo de combate. Em Vampyr, temos um sistema de combate que vai buscar alguma inspiração à série Souls, focando-se muito em desviar e atacar no momento oportuno.

O combate vai buscar muito de Souls, mas mais rápido e mais simplista

É também um combate mais rápido que, por exemplo, em Bloodborne uma vez que ao desviar, Jonathan desfaz-se em fumo e aparece uns metros na direção em que apontaram. Existe também uma barra de stamina que é gasta quando desviam, atacam e sprintam.

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O sistema de combate não oferece uma enorme profundidade, nem existem muitas armas, mas é viciante o suficiente para sustentar o jogo. As armas incluem serrotes, espadas, pistolas, caçadeiras, foices, bastões, entre outros.

Cada arma pode ser melhorada até 5 níveis, com cada nível a oferecer uma escolha entre dois atributos para melhorar. As armas estão divididas em 3 categorias: main hand, off hand e dual wield. As armas main hand são as vossas armas principais como espadas que utilizam na mão direita. As armas off hand causam geralmente menos dano, mas podem aplicar stun nos inimigos, deixando-os abertos para ataques, ou para lhes sugarem o sangue e incluem as armas de fogo, adagas ou estacas. As armas dual wield ocupam um espaço em ambos os slots, mas permitem causar dano e stun ao mesmo tempo, apesar de mais reduzido e, fazer parry permitindo que se defendam dos ataques.

Além das armas, podem utilizar poderes vampíricos. Estes poderes requerem, na maioria, sangue que podem sugar dos inimigos durante os combates, ou dos ratos que encontram nas ruas. Apesar de não existirem muitos poderes, todos podem ser utilizados de forma eficaz nos combates, pelo que podem utilizar aqueles que vos parecerem mais confortáveis.

Existem vários poderes para desbloquear e melhorar, assim como armas

Com a experiência que recebem, podem aumentar o nível dos vossos poderes, que vão causar mais dano ou gastar menos sangue. Também podem aumentar as estatísticas de Jonathan, aumentando a barra de saúde, stamina, sangue, absorver mais sangue ou causar mais dano ao morder, entre outros.

Existe um compromisso que é necessário fazer, caso queiram assassinar o menor número possível de pessoas, uma vez que os poderes em níveis altos custam bastante experiência, que não conseguem obter praticamente sem ser ao assassinar pessoas. Isto pode levar a todos os problemas que mencionei anteriormente, mas conseguem um bom salto no que toca a força.

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Apesar de relativamente desafiante no início, após subirem alguns níveis e escolherem um equipamento com o qual se sintam confortáveis, Vampyr perde um bocado o desafio, sendo que conseguem facilmente derrotar inimigos. Ao terem as estatísticas ao máximo, se juntarem armas a nível máximo são praticamente invencíveis.

Um pormenor que adorei, foi o facto de que ao aumentarem de nível, o aspeto de Jonathan vai ficando cada vez mais vampírico, com os olhos a mudar de cor e o seu aspeto cada vez mais cadavérico. Isto também abre novos diálogos, uma vez que as pessoas entendem que chegaram a essa situação ao assassinar pessoas.

Gráficos, som e performance

Joguei Vampyr na PS4 normal. O jogo faz uso do Unreal Engine 4 e isso confere-lhe gráficos acima da média, apesar de não serem nada de topo. Existem alturas em que alguns personagens ou cenários parecem bastante feios, outros em que parecem espetaculares, especialmente no interior das casas que são incrivelmente detalhadas.

Vampyr sofre de muitos problemas técnicos que estragam a imersão e levam a frustração

Em termos de som, achei o voice acting bom, nada de brilhante, mas pareceu bastante profissional, até exageradamente teatral por vezes, algo que não considero mau. A banda sonora é bastante boa, especialmente nalgumas lutas.

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Em termos de performance, Vampyr sofre muito, com várias quedas de FPS, loadings enormes, loadings que ocorrem durante a exploração, especialmente se fizerem muitas vezes dodge para andarem mais rápido, visto que as texturas não carregam a tempo e, foi o jogo que mais vezes sofreu crash desde que tenho uma PS4.

Conclusão

Vampyr não é um mau jogo, mas sinceramente preferia que focasse mais em ser um “simulador” de vampiros, do que um RPG de ação. O jogo corre muito à volta do combate, quando não havia necessidade uma vez que o combate é simplesmente competente, enquanto que o universo de jogo é bastante interessante de explorar e seria preferível dedicar-me mais a isso, sem ter de parar a meio para lutar contra uns inimigos relativamente genéricos.

Vampyr não é o jogo de vampiros perfeito que muitos querem, mas é um bom começo

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