Análise – Dissidia Final Fantasy NT: Tudo à pancada [Review]

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Combate profundo e caótico
Boa quantidade de personagens
Extensa banda sonora
Loot boxes bem implementadas
História banal
Poucos modos de jogo
Interface pouco acessível
Grind excessivo
IA fácil de explorar
70

Apesar de conhecer Dissidia Final Fantasy, nunca foi um jogo que tivesse grande curiosidade de jogar, talvez por nunca ter entendido bem o conceito. Os spin-offs de Final Fantasy sempre me passaram um pouco ao lado, sendo que apenas depois de os experimentar consegui gostar mesmo deles. O melhor exemplo que posso dar é Theatrhythm Final Fantasy para a 3DS.

Final Fantasy sempre produziu spin-offs interessantes

Dissidia FF NT é a continuação dos títulos lançados previamente para a PSP, que saiu inicialmente nas arcadas japonesas em 2015. Quando vi o trailer pela primeira vez, fiquei com a ideia que seria algo do estilo Tekken ou Soul Calibur, mas com personagens de Final Fantasy (que seria fantástico na minha opinião).

Será que o jogo vale a pena, especialmente numa altura em que o género de luta foi invadido pela Arcade Edition de Street Fighter 5 e o excelente Dragon Ball Fighters Z? Vejamos.

História interessante, mas com desenvolvimento fraco

A história de Dissidia FF NT envolve duas entidades divinas, Materia e Spiritus, que invocam os personagens dos vários mundos de Final Fantasy para lutarem em seu nome, na tentativa de dominar o mundo alternativo em que vivem.

Obviamente que existe um bom e um mau, o que serve para dividir os heróis dos vilões dos respetivos jogos. As lutas entre as duas fações geram energia, que permite a este mundo alternativo continuar a existir. Apesar de não ser a primeira guerra entre o bem e o mal, desta vez os guerreiros mantêm as memórias dos seus mundos e da guerra anterior, caso tenham participado.

A história podia ser excelente, mas acaba por ser banal e cheia de clichés

No entanto, descobre-se que existe uma entidade chamada planesgorgers está a destruir as várias dimensões que fazem parte do mundo alternativo e, cabe aos heróis e vilões, juntarem forças para os derrotar.

DissidiaNT_Announce_Screenshot02_1496829870A história em si possui uma premissa interessante. Em algumas coisas lembra-me a série Fate, no qual os heróis e vilões são invocados para lutarem entre si.

O problema em Dissidia FF NT, é que esta história é desenvolvida de forma um pouco pobre, com cutscenes minúsculas, que pouco fazem para desenvolver o mundo ou a importância que as lutas entre os personagens têm para o manter vivo. Isto vai levar a um dos problemas mais graves do jogo, que falarei mais à frente.

O final também foi um pouco anti climático, sendo que após derrotar o boss final, vamos imediatamente para os créditos, que não podemos saltar e demoram quase uma hora, como é hábito em Final Fantasy, com duas cutscenes no final, que servem mais para preparar o próximo jogo do que para concluir este.

A passo de caracol

O principal problema de Dissidia FF NT, é a forma como a história está estruturada. Existe uma árvore com três ramos principais, com vários nós. Cada nó necessita de pontos de “memória”. Ao todo, são necessários à volta de 20 pontos de memória para desbloquear todos os nós da história.

 

Em cada nó, temos uma cinemática ou um conjunto que envolve cinemáticas e lutas, com personagens pré-definidas.

O jogo possui imenso padding e grind excessivo

É aqui que entra a parte má. Completar um nó da história não vos recompensa com pontos de memória. Para os obter, têm de passar um dos modos de jogo, chamado Gauntlet.

padding-paddingNeste modo, terão de completar 6 lutas em sequência, sendo que não podem interromper sem perderem o progresso. Cada vez que terminam o modo, recebem um ou dois pontos de memória. Isto aumenta bastante o padding, fazendo que demoram bastante a desbloquear os pontos necessários para continuar a história.

Em cada luta, existem vários modos de dificuldade, sendo que o mais alto em que podem começar depende do nível do vosso personagem. Os níveis são Bronze, Silver, Gold, Platinum, Mythril, Diamond, Nightmare e Chaos. Em cada nível, existem sub-níveis que vão de E a A, por exemplo Silver E, Silver D até Silver A, antes de passarem para Gold E.

O problema com este sistema, é que isto introduz uma quantidade de grind absurda, uma vez que existem 28 personagens, o que significa que, se querem subir mais rapidamente de nível e querem ter todos os personagens a nível máximo, vão ter de meter várias centenas de horas no jogo e terão de jogar nas dificuldades maiores, nas quais vão praticamente fazer sempre a mesma coisa.

Felizmente, existe uma salvação, que falarei a seguir.

Escasso em modos de jogo

Existem dois modos de jogo em Dissidia, compostos por duas equipas de 3 personagens. O modo principal, que também é usado na história, é o combate 3v3, nas quais ambas as equipas têm 3 pontos e, quando um dos membros é incapacitado, a equipa perde um ponto.

DissidiaNT_Announce_Screenshot08_1496829874O outro modo, de nome Core Battle, possui uma mecânica mais interessante e estratégica. Neste, cada equipa possui um cristal (core) que está protegido por uma esfera. O objetivo deste modo é destruir o cristal inimigo, enquanto protegem o vosso.

Apesar de ter poucos modos, as estratégias a usar em cada um são muito diferentes

A regra que torna este modo interessante, é que não podem causar dano ao cristal inimigo, caso um personagem adversário se encontre dentro da esfera. Isto evita que ambas as equipas corram imediatamente para o cristal adversário e a mais rápida ganha. É necessário algum engenho e criatividade para enganar o adversário e vencer a partida.

Existem ainda lutas de bosses contra as invocações já conhecidas dos Final Fantasy anteriores, que mudam um bocado o ritmo do jogo, apesar de não estarem livres de problemas, devido aos picos de dificuldade que ocorrem nestas lutas.

Quando disse que existia uma salvação para o padding e para facilitar o grind, falava em algo que é bom e mau ao mesmo tempo. Isto consiste num exploit que vos vai poupar horas e horas de grinding desnecessário.

No entanto, isto não é bom porque basicamente envolve fazer uso da fraca IA adversária para evitar uma má decisão no design do jogo.

DissidiaNT_Announce_Screenshot11_1496829866Para fazerem uso deste exploit, têm de utilizar um certo personagem e jogar Gauntlet Core battle. Com essa personagem, conseguem atacar o núcleo sem ter de entrar na esfera, o que faz com que a IA adversária não seja tão agressiva para convosco.

Existe um exploit que permite poupar muito tempo, mas não deveria ser necessário recorrer a isto

Entretanto, os vossos companheiros controlados pelo computador, estão programados para atacar e defender os núcleos, o que fará com que os adversários os deixem expostos e à mercê dos vossos ataques. Isto é igual em todas as dificuldades, o que significa que podem jogar na maior dificuldade com personagens em Bronze e ganhar sem problema, recebendo toneladas de experiência.

Multijogador um pouco injusto

Existem dois rankings para os vossos personagens, o offline e o online. No offline, vão ficar familiarizados com os vários lutadores existentes, sendo que o vosso preferido será o que vão usar online.

Os modos online são os mesmos do offline, mas os membros da vossa equipa são escolhidos e controlados por outros jogadores.

DissidiaNT_Announce_Screenshot10_1496829866O problema aqui, são as regras. Para vencerem o jogo, têm de incapacitar três adversários, não importa qual dos membros da equipa, tal como em offline. No entanto, se tiverem um ou dois membros da vossa equipa, ou até vocês mesmos, que ainda não dominem bem os personagens ou não souberem definir estratégias e posicionamento no campo, poderão ser derrotados as 3 vezes rapidamente, terminando assim o jogo para toda a equipa.

As regras do modo online não promovem a perícia, mas punem a equipa com um jogador mais fraco

Isto faz com que só precisem de um mau jogador, para perderem o jogo. Uma boa solução seria introduzir uma regra na qual se um jogador for eliminado, fica eliminado até ao fim da partida. Apesar de introduzir um elemento de superioridade numérica, caso exista um jogador bastante competente na equipa, é possível fazer os famosos “clutches”, dando a volta ao resultado.

Outra hipótese seria aumentar o tempo de respawn, o que impede os adversários de caírem constantemente em cima do jogador mais fraco, sendo que, por definição, têm 10 segundos para escolher um novo local para renascerem. Em vez disso, teriam de esperar, por exemplo 30 segundos até poderem escolher o novo local, que seria justo numa partida que tem à volta de 5 minutos de duração.

Combate que junta vários elementos de outros jogos

O combate em Dissidia é bastante interessante. Como disse, pensava que era uma espécie de Tekken, mas na realidade está longe disso. É mais parecido com, por exemplo, J Stars Victory VS ou Dragon Ball Xenoverse, no qual têm um mapa maior que um simples ringue, nos quais podem navegar livremente.

Cada personagem possui 3 tipos de ataques. Bravery, HP e Ex Skill.

O combate possui bastante profundidade e requer boa sinergia entre os personagens

Os Bravery, são ataques que reduzem os Bravery points do adversário, aumentando os vossos. Ao reduzirem os pontos adversários a zero ou menos, vão colocá-los em estado Broken. Durante esse estado, ficarão atordoados, sendo que podem atingi-los com um ataque HP, que reduz a vida desse adversário. Ao chegar a zero vão incapacitá-lo.

DissidiaNT_Announce_Screenshot19_1496829864Também podem atingir os adversários com um ataque HP, mas a vida que tiram não é tanta, uma vez que os Bravery reduzem a vida de forma temporária, sendo que, caso não os atinjam com um ataque HP, podem recuperar essa saúde. Daí ser importante juntar os dois tipos de ataque.

Os Ex Skills são as magias disponiveis, sendo que existem várias de ataque e suporte. Estas podem aumentar o ataque ou a defesa dos companheiros, envenenar ou cegar os inimigos, entre muitos outros.

Este tipo de ataques, aproxima o combate mais de um MOBA de ação do que propriamente de um hack and slash, como os trailers dariam a entender. Além disso, cada personagem possui uma profissão, com diversas forças e fraquezas, que aumentam ainda mais a profundidade do combate.

Durante o combate, aparecem uns cristais que ao serem destruídos, aumenta a vossa barra de Summon. Ao chegar ao fim, podem invocar um dos icónicos seres disponíveis, que vos dão bónus e ainda causam dano aos adversários.

Loot Boxes como devem ser

Seguindo as tendências, Dissidia também vem com as ínfames Loot Boxes, ou Treasures, como aqui são chamadas. No entanto, aqui não são ínfames, são muito bem feitas por três razões, que se existissem em todos os jogos, ninguém se queixava.

De vez em quando lá aparece um jogo com Loot Boxes bem implementadas

As razões são: não se podem comprar com dinheiro real, todos os itens podem ser comprados com dinheiro ganho no jogo e o melhor, não existem duplicados. Além disso, são muito fáceis de ganhar, visto que cada Gauntlet pode dar à volta de quatro.

DissidiaNT_Announce_Screenshot14_1496829868Os itens que vêm nos Treasures consistem em ícones e títulos para o vosso perfil, frases que podem usar durante os combates, fatos e armas para os vossos personagens e músicas que podem usar durante o jogo.

Interface um pouco confusa

Pessoalmente, achei a interface do jogo um pouco confusa e pouco acessível. No Gauntlet, ao escolherem um dos combates da lista, não podem voltar atrás, apenas podem escolher qual dos Ex skills previamente definidos querem usar.

Podem personalizar o vosso personagem neste menu, mas apenas escolher as roupas e os Ex skills, caso queiram editar, têm de andar uns quantos menus para trás e escolhê-los da lista.

A interface não é muito acessível, mas é algo facilmente remediável

Além disso, nem na lista, nem no menu de escolha de personagem aparece a profissão de cada um, pelo que se não as souberem de cor, fica complicado escolher a equipa com a melhor sinergia, especialmente no multiplayer.

Acho que o jogo beneficiaria de um update neste aspeto, nem que seja para melhorar a acessibilidade dos menus.

DissidiaNT_Announce_Screenshot13_1496829867Gráficos e som

Graficamente, Dissidia está entre Final Fantasy XIII e Final Fantasy XV. Além disso, a forma como corre não é má, mas também não é boa. O jogo por vezes possui quedas de FPS que atrapalham um pouco, especialmente com um combate tão caótico.

Apesar de algumas quedas de FPS, Dissidia é um jogo bastante fluído, mesmo na PS4 normal.

Se jogarem na PS4 Pro, existe a possibilidade de escolher entre modo com melhor resolução, ou melhor performance. Acho que na PS4 normal também deveria ter sido implementado isto, uma vez que jogos como Nioh o fizeram e só tiveram a ganhar com isso.

DissidiaNT_Announce_Screenshot17_1496829865Em termos de som e voice acting, existe uma excelente quantidade de músicas de todos os Final Fantasy, sendo que podem obter mais em Treasures ou comprando na loja do jogo. O voice acting também está ao nível de um Final Fantasy normal, sendo que podem escolher entre Inglês e Japonês. Pessoalmente saltei entre os dois, para ir variando um pouco.

Conclusão

Dissidia Final Fantasy NT é um jogo bastante interessante. Possui uma profundidade muito boa no que toca ao combate e estratégias, mas sofre com pouca acessibilidade e uma história que podia ser excelente, mas acaba por ser banal.

Enquanto novato nesta série, perguntei a veteranos que conheço e já jogaram, qual era o principal objetivo deles e todos me disseram, escolher um personagem principal, subir o seu nível e ir para o multijogador. Pessoalmente, também faria isto, uma vez que, com a quantidade de grind necessária para subir o nível de todos os personagens, mais vale ficar realmente bom e confortável com um deles.

Se são fãs da série, provavelmente vão querer jogar este novo título. Caso sejam novatos e não se importarem com o grind, existe aqui conteúdo para vos entreter durante muito tempo.

São fãs de Dissidia? Como veteranos, o que acham deste novo título?