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Análise – Detroit: Become Human

Universo de jogo excelente
A forma como o jogo fala de um problema atual
Muito bom a nível técnico
Árvore de decisões incrivelmente grande
Pouco desenvolvimento de alguns personagens
Jogabilidade muito trapalhona
Algum padding nas primeiras horas do jogo
80

Os jogos da Quantic Dream sempre foram algo que gostei, uma vez que oferecem uma experiência bastante diferente dos restantes jogos. Apesar de muitas vezes serem adjetivados de “filmes interativos” pelas más razões, para mim é o contrário, pois conseguem dar ao jogador um controlo no desenrolar dos eventos que não é possível num filme normal, apesar de serem bastante mais limitados que um típico jogo.

Recentemente, joguei Beyond: Two Souls, que me tinha passado ao lado na geração passada e, visto que estava grátis no PS Plus e Detroit: Become Human estava quase a sair, decidi ver o que tinha perdido. Confesso que adorei completamente o jogo e estive horas e horas agarrado de tal forma, que nem dei conta do tempo passar.

Joguei Beyond: Two Souls recentemente e foi o meu jogo favorito da Quantic Dream até agora. Será que Detroit consegue fazer melhor?

Detroit: Become Human é bom, mas não achei tão bom quanto Beyond. Vejamos porquê.

Detroit: Um futuro próximo?

A história de Detroit, passa-se num futuro próximo, que pode muito bem ser o nosso, dados os avanços constantes nas tecnologias da robótica e inteligência artificial. Neste futuro, os androides fazem parte do dia-a-dia do ser humano e a sua capacidade de efetuar trabalhos eficazmente sem se cansarem, fizeram com que a economia dos países que os adotaram passassem por um período de grande crescimento.

No entanto, apesar de existirem grandes benefícios económicos, os androides substituíram os humanos na indústria e serviços, levando a que a taxa de desemprego disparasse para níveis insustentáveis. Um dos locais mais críticos é Detroit, a cidade onde o jogo se passa na maioria do tempo, que curiosamente acaba por fazer um paralelo com a situação atual.

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A Quantic Dream conseguiu passar os problemas atuais de racismo e xenofobia para o jogo, com um alvo bem diferente.

O setting do jogo é extremamente bem feito, com uma baixa empresarial composta por arranha-céus, enquanto que a sua periferia é composta por casas abandonadas ou zonas em construção. Existe uma espécie de contraste muito bem definido, entre as zonas que floresceram graças aos androides e as zonas para onde fugiram os que se viram sem emprego.

Três histórias, três destinos interligados

Tal como aconteceu em jogos anteriores, Detroit introduz-nos a três personagens diferentes, cujas histórias são alteradas de acordo com as escolhas do jogador, que eventualmente acabam por se cruzar e influenciar.

Temos Connor, um androide enviado pela Cyberlife, a empresa que cria estes robôs, para ajudar a polícia em casos que envolvam Deviants, androides que sofreram uma alteração no seu programa e os levou a cometer crimes. Connor possui uma personalidade peculiar ou melhor, uma quase falta de personalidade, que o próprio personagem chega a explicar quando é confrontado com este facto. A Cyberlife deu-lhe uma forma de falar quase cómica e uma aparência semelhante, de forma a facilitar a interação com os polícias humanos.

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Connor é o personagem com o menor desenvolvimento, mas representa o lado pró-humano que acha que um androide não passa de uma máquina, uma vez que foi assim programado. Ao longo do jogo será confrontado com várias escolhas que podem, ou não, colocar esta mentalidade em causa.

Markus é a nossa figura central do jogo, no que toca aos acontecimentos. Devido a uma situação complicada, este androide passou de tomar conta de um idoso, para um aterro de androides destruídos após se tornarem Deviants. A história de Markus é a que mais influencia as demais, uma vez que a sua luta pela igualdade e liberdade dos androides pode ser pacífica, levando a uma boa opinião pública, ou violenta, fazendo com que os cidadãos e forças de segurança se tornem hostis para com os androides, podendo levar a uma maior dificuldade em certas partes das histórias dos outros personagens.

Os três personagens possuem caminhos e objetivos distintos, mas as escolhas do jogador para um, podem influenciar os caminhos de todos eles.

Kara é a personagem mais emocional do jogo. Após ver a filha do seu dono ser alvo de agressões, decide fugir com a criança para fora do país, de forma a poder dar-lhe uma vida mais sossegada e feliz. A sua história é bastante influenciada pela de Markus, uma vez que a forma como a revolução é levada a cabo pode tornar a sua mais difícil, visto que pode ver recusada a ajuda de outros humanos. É também nesta história que vemos um “plot twist” muito interessante mais para o final.

Apesar de existir uma dinâmica única em ter três histórias que se podem interligar, na realidade existe sempre alguma que não vê o devido desenvolvimento. Connor só vê algum desenvolvimento no seu personagem se o jogador quiser, não que seja propriamente mau visto que a história está feita para ser moldada pelo jogador, o problema é a possibilidade de haver muito pouco ou nenhum desenvolvimento se escolhermos não fugir do caminho pré-definido.

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Markus, apesar do papel central, acaba por não passar muito de ser apenas a cara da revolução, sendo que as suas ações são afetadas pelos outros personagens à sua volta, ou pelo menos, é o que o jogo quer que façam, uma vez que as vossas escolhas vão agradar a alguns membros da comunidade, mas não a outras.

Kara acaba por ser a personagem com melhor desenvolvimento, uma vez que a estrutura mais emotiva da sua história, leva a que se torne na personagem mais relacionável. É também a que explora melhor o tratamento dos humanos para com os androides e aquela cuja história pode ser mais influenciada pelo desenrolar da história de Markus.

Ao contrário de Beyond: Two Souls, o facto de termos mais que um personagem leva a uma maior variedade de acontecimentos, mas claro, não leva a um desenvolvimento de personagens que leva a um maior envolvimento com o jogador. Pessoalmente, não consegui gostar tanto de Markus enquanto personagem como gostei de Jodie em Beyond. No entanto, gostei mais de Connor, visto que é a melhor representação do jogador e Kara foi uma personagem bastante relacionável e ofereceu um conjunto de decisões mais altruístas, apesar de podermos ser completamente egoístas.

Jogabilidade trapalhona

Tirando a menor ênfase no desenvolvimento dos personagens, um dos pontos verdadeiramente negativos de Detroit, é a jogabilidade. O movimento dos personagens é bastante trapalhão, quase parecendo os antigos “tank controls” que víamos nos jogos como Grim Fandango ou Resident Evil, entre outros.

Os controlos dos personagens são muito pesados e pouco responsivos. Alguns QTEs sofrem com os planos de câmara

Outro fator da jogabilidade que não foi muito bem implementado é a quantidade de diferentes combinações de botões nos QTEs. Isto é piorado em cenas de ação e luta, quando a câmara abana bastante e o motion blur presente não oferece grande perceção do botão que temos de carregar, estando por vezes escondido por detrás deste efeito, levando a combinações falhadas que podem ter maus resultados se acontecerem em certas alturas.

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Os primeiros dois ou três capítulos de Markus e Kara estão repletos de padding, levando a algum filler enquanto fazemos tarefas de casa em exagero, algo que podia ser bastante reduzido, sendo o tempo aproveitado para desenvolver as relações entre os personagens. Algumas combinações de QTE também são bastante estranhas, fazendo com que tenham de colocar os dedos em posições nada naturais, ou tenham de usar a outra mão para os conseguir fazer.

O principal colecionável do jogo são umas revistas eletrónicas que possuem duas histórias e mais que uma página. Estas revistas são excelentes para ver o que se passa no mundo do jogo, assim como o desenrolar de acontecimentos causados por Markus, mas a forma como alteramos as páginas não funciona bem, necessitando de deslizar o dedo no touchpad do comando, que nem sempre responde da melhor forma.

Gráficos, performance e som

Graficamente, Detroit é um jogo muito bom, tal como é hábito em jogos da Quantic Dream. As horas de captura de movimento e gravação levaram a uma excelente performance dos atores e expressões faciais muito credíveis. O lip sync, por vezes, é um bocado dessincronizado ou menos expressivo, mas no geral, é uma boa experiência.

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Em termos de performance, joguei na PS4 normal e por vezes existiam algumas quedas de FPS, normalmente em situações mais exigentes a nível gráfico, com muitos efeitos. Estas quedas acabam por se tornar mais frequentes na parte final do jogo, devido à constante neve que cai.

Apesar de algumas quedas de FPS, Detroit tem excelente aspeto e corre bastante bem, mesmo na PS4 normal.

Quando experimentei o jogo no evento que a Sony organizou, estávamos a jogar na PS4 Pro e algo que notei na versão da PS4 normal, é o efeito de Depth of Field bastante carregado, que esbate as texturas que estão mais longe do personagem, dando um efeito de miopia um pouco desconfortável.

Em termos de banda sonora, apesar de não estar tão presente, os momentos de ação ou de maior tensão são pautados por música muito boa e adequada à situação. Algumas dessas cenas estão fantásticas, muito devido à excelente música que as acompanha.

Conclusões

Detroit: Become Human é uma excelente rendição de um problema atual, disfarçado de um problema futuro. A forma como a sociedade está caracterizada e o universo do jogo, está muito bem feita e cada revista que lêem só serve para aumentar o vosso interesse nesse mundo.

Apesar de alguns personagens sofrerem de pouco desenvolvimento, a forma como as histórias se interligam, a variedade de níveis e a incrível quantidade de escolhas fazem de Detroit o jogo com melhor valor da Quantic Dream até hoje. Foi o primeiro do estúdio, que acabei e me deu uma grande vontade de o recomeçar e fazer outro caminho em cada capítulo.

A jogabilidade trapalhona e o padding podem fazer com que Detroit sofra um pouco em certas situações, mas no geral é uma experiência extremamente imersiva.

Vão comprar Detroit? São fãs deste tipo de jogos?

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